Ano novo, vida nova!

“Este será meu ano!”, ela disse entusiasmada. “Vou mudar! Chega de aceitar as migalhas da vida! Vou procurar o meu brilho! Já me matriculei na academia, enviei a carta ao departamento de RH (não posso continuar a ser subutilizada pela empresa!), vou começar a separar o dinheiro para a viagem do meio do ano… é isso aí! Ano novo – Vida nova!”, e assim entrou janeiro. Cheia de esperanças. Igual a tantos de nós.

“Virada de ano pra mim é bobagem. É mudar a folha do calendário, apenas mais um dia como qualquer outro. Porque virou o ano tudo mudará? Por que não muda na virada da semana, da quinzena, do mês, bimestre…”, ele disse dando de ombros e completando com sua costumeira fala de final de ano: “eu passaria o réveillon dormindo tranquilamente! Ficar procurando lugar pra passar a meia-noite, um calor insuportável, aquelas pessoas bêbadas de esperança e de champanhe derramando bebida na sua cabeça pra dar sorte”.

Eu sei que não existe mágica. Sei que é apenas uma convenção, mito de calendário – diria o poeta. Sei que o ano se faz com boas intenções mas é preciso sustenta-las e reafirmá-las a cada dia. A cada dia o ano reinicia. Sei que chegaremos todos ao término dos 365 dias, contabilizando perdas e ganhos; frustrações e simples desejos; ansiedades e abandonos. Eu sei. Você sabe. Ela e ele sabem.

Mas reagimos sempre. E isto é viver: reagir. Dizer sim e não. Chorar de raiva ou paixão. Rir de tantos e principalmente de si mesmo. Rezar silenciosamente enquanto o sol nasce, uma oração sem palavras: comunhão com olhos. Soltar um palavrão na chuva quando o sinal fecha entre duas avenidas e o ônibus nos dá um banho. Viver é reagir. É dar soco na mesa, roubar beijos, ter o coração pequeno quando o “eu te amo” não vem. Viver é reagir contra morte, essa megera que reafirma a vida e lhe dá cor e sentido. E no fim de tudo quando nada fizer mais sentido: viver é reagir inventando! Inventando quem nós somos e como seremos lembrados, os frutos esperançosamente deixados. Inventar vocação, família, opinião. Inventar o corte de cabelo (mesmo que você invente descolorir um pouco pra encontrar a sua verdadeira cor!), cor de esmalte, dieta, viagem, promoção. Inventar o que sonha, o que medra, o que desapega. Inventar o que é e o que não é na vida. Porque no fim do ano lembramos que, como ele, temos também final. E se estar vivo é recomeço, um dia seremos uma vaga lembrança. Um nome a ser recordado em reuniões de família, um verbete fantasioso em uma enciclopédia, nome de rua, de praça talvez. E nada disso seremos na verdade. Seremos o que sempre fomos: poeira de estrelas!

Celebremos o ano novo. Não, ele não chegou! Nós é que chegamos nele, correndo, atropelando, nos derramando. Principalmente, nos reinventando! Reinvente-se!