No estúdio com a banda DOM: o que aprendi gravando este próximo CD!

Quando gravar um CD? Que repertório escolher e com que critérios? Qual a proposta do novo trabalho?

O DOM está em estúdio novamente! Gravando seu 5o CD! E a jornada recomeça. Sim, gravar um álbum é uma jornada. Há um ponto de partida, um chamado, uma trajetória, perigos e tentações, sofrimentos e alegrias e no fim de tudo: um ponto de chegada. Uma vitória a ser conquistada.

No começo de tudo é uma faísca, uma inspiração, um desejo. É isso mesmo, não subestime seus desejos. Deus fala através deles também. E o DOM desejou. Desejou continuar. Pode parecer que a vida de um grupo que tem os mesmos integrantes por mais de 17 anos é um percurso no piloto automático. Mas não é. Há sempre o questionamento se devemos continuar, se ainda há algo a dizer e a contribuir, se ainda precisamos estar juntos. E a melhor maneira de se responder a estas perguntas é: o que temos para dar?

Reunimos as canções que cada um compôs ao longo dos anos desde o último trabalho do grupo. Tentamos encontrar o fio condutor estético e espiritual que pudesse ligar os pontos e tornar sólido o projeto. A solidez de um projeto musical vem da coerência entre composição, arranjo e interpretação.

Não, não há unanimidade. Sim, precisamos muitas vezes ceder individualmente em busca do que é melhor para o grupo. Mesmo já tendo gravado outros álbuns e passado pelo mesmo processo outras vezes, precisei estar atento. A tentação é querer impor ou se frustrar excessivamente quando algo corre de forma diferente do que desejamos. Sim, desejos também nos confundem. Para mim, tudo fica melhor quando eu percebo que se estou cometendo algum erro, não estou sozinho neste processo. Lembro das palavras de Dostóievski: se a Igreja está errada, prefiro errar com a Igreja do que acertar sozinho.

Musicas escolhidas, estética definida, entramos em estúdio. E aí eu aprendi muito. Especialmente com o Filipe Freire e o Rafael Düniec, técnico de som que nos acompanhou nas gravações de violões. Vou falar do Filipe Freire primeiro. Ele, que além de integrante da banda, é novamente o produtor da banda e responsável pelos arranjos do grupo.

Foram muitas idas até a casa dele. Moramos perto um do outro. E nos reuníamos para ver as fórmulas das musicas. Estrofe, refrão, especial, solo. E aquilo que parecia, para mim, apenas uma canção, no talento do Filipe virava uma história a ser contada. Aprendi muito. Musicas são histórias. E cada uma delas tem um jeito próprio, especial e ideal de ser contada.

Na hora de gravar as canções o Filipe foi um gigante. É sério! Conheço ele há pelo menos uns 25 anos, muito antes da banda DOM. E dessa vez, eu voltava do estúdio dirigindo meu carro azul de noite pensando: o Filipe me surpreende! Ele encontra sempre espaços, cria diálogos, elabora dinâmicas. É o arranjo. E o arranjo veste a canção com a roupa adequada. Não exclui nem exagera.

De repente, os problemas. O que fazer? Lembrei do filme Tubarão, do Steven Spielberg. Ele também tinha tido muitos problemas com o "tubarão" mecânico que seria usado. Como solucionar? Insistir em fazer funcionar o que não dava sinais de poder ser resolvido sem que se estourasse prazos e orçamentos? O cineasta optou por resolver o problema, não com o próprio problema (insistindo no que dava errado) mas com a solução. Optou por filmagens onde o plano submerso evocava uma realidade misteriosa e assustadora, encomendou uma trilha sonora de tensão crescente e deixou que o tubarão fosse uma sombra de medo pressentida mas não revelada. Resultado: sucesso!

Filipe fez o mesmo. Focado. Forte. Determinado. Eu o vi, mudar acordes, frases, inflexões. E o que me impressionou foi que aquilo tudo não surgia de um modo empírico. Estava lá na sua cabeça. Quando eu o cumprimentava afirmando após alguma modificação sua: funcionou! Ele me diza: eu sabia que ia funcionar! Porque a música estava dentro dele antes de ser tocada e gravada. Nunca vou esquecer isso.

E o Rafael? O Rafa, que gravou a gente, editou digitalmente, cuidou do acabamento de cada detalhe, virando madrugadas entre plugins e crossfades. O Rafa é de uma lealdade sem par. Aos amigos, ao projeto e a Deus. Eu chegava algumas vezes as 9 da manhã e enquanto entregava a sua cota de açaí diário perguntava: acabaram tarde? E ele respondia: eu dormi as 3. Nunca reclamando e sempre gerando um clima positivo no estúdio. O Rafa também é um gigante.

Das muitas qualidades que admiro no Rafa, eu destacaria além da lealdade, o seu ouvido. Assim como o Filipe, ele percebia estalos, ruídos, frequências e batimentos e olhava pra mim perguntando: ouviu? Eu, como sou vaidoso e presunçoso, muitas vezes dizia: ouvi sim. Mas, as vezes, devo confessar que era mentira. E eu voltava pra casa no meu carro azul pensando em como Deus tinha um senso de humor peculiar ao colocar um músico como eu, muito pouco hábil e com um ouvido tão ruim para tocar numa banda que era ouvida e amada por tanta gente. E o carro azul fazia curvas, eu rezava meio triste por mim e consolado por ter ao lado um cara como o Rafa.

E a gravação dos violões terminou. A partir de agora o Fred colocará voz em São Paulo. A distância não me permitirá acompanhar. O Filipe estará lá dedicado e focado como foi até aqui. E fará o melhor. Assim como o Fred. Aliás, sempre admirei isto no Fred: ele canta do jeito que a canção precisa ser cantada. Não exagera. Não quer aparecer mais que a música. O Fred, também como artista, é de uma humildade extraordinária. Aprendi muito com ele e ainda hoje aprendo, depois de tantos anos.

Eu não acompanharei as gravações de voz nem a mixagem. Estarei aqui. Rezando. Torcendo. Desejando. Perplexo por poder ter esta oportunidade (trabalhar com pessoas tão talentosas e dedicadas). Feliz pela perseverança em mais este ano de grupo. E dirigindo meu carro azul em meio ao trânsito e a minha vaidade. Em meio a esperança e aos meus medos. Tentando escutar o que Deus quer de mim.