Pode um músico ter algo há dizer sobre a paixão de Cristo? Posso ter algo a partilhar com vocês sobre a experiência fundamental da nossa fé: o sofrimento, morte e ressurreição do Filho de Deus? Não sou teólogo ou filósofo. Sequer professor de religião.

Sou apenas um professor de violão, um músico cheio de tantas limitações. Mas meu coração me move mesmo assim. Não posso resistir. Tento, confesso envergonhado, mas não consigo lhe resistir. A morte e ressurreição de Cristo é a razão da minha fé e a minha fé é a razão da minha arte.

Não posso me aproximar de Cristo através de conceitos. Simples frases decoradas e formuladas não me ajudam nessa tarefa. Sou chamado a estar e permanecer ao seu lado, como os discípulos no Getsêmani: orando, vendo chorar gotas de sangue aquele que fez calar os ventos acalmando as tempestades. Aquele que ressuscitou mortos, curou doentes e multiplicou pães e peixes. Está aqui, tão perto de mim que quase ouço sua respiração ofegante e a voz trêmula pedindo que se passe este cálice sem que ele o beba. É fardo demais. É grande demais o peso que carrega.

Inquieto, ele ajoelha e se levanta várias vezes e busca a companhia dos que o seguem. Mas ninguém o seguirá nesta noite mais escura. Ninguém poderá. Nem eu. Não pude repetir muitas vezes em minha a vida sua afirmação: Seja Feita A Sua Vontade! Neguei-lhe muitas vezes, meu Deus, o direito de dispor de mim, da minha vida. Escravizei-me no pecado, perdi minha liberdade querendo vivê-la a qualquer custo. Pequei e esse pecado eu não tenho forças para carregar. Ofendi alguém muito maior do que eu e esse preço não tenho condição de pagar. Está acima das minhas possibilidades. Das minhas condições.

Quem carrega este peso é Ele: Jesus. Que agora desfila ao meu lado ensinando-me que devemos suportar o sofrimento e termos esperança. Deus não se cala. O véu se rompe de alto a baixo e nada poderá nos afastar do Amor de Deus. E o Amor de Deus fala. Comunica vida. Rola grandes pedras que nos sepultam em tristezas tão profundas que nos negam a felicidade. Deus é felicidade! A busca por Deus é a busca da própria felicidade! “Onde está meu Senhor?” – também em mim vibra essa pergunta. Onde o puseram? Não vejo mais sinais da sua morte. Da sua dor. As vestes estão ao chão.

Sinto-me abraçado. Posso tocá-lo. Posso tocar a razão da minha existência. Posso tocar Aquele que dá razão e sentido a tudo e a todos em minha vida. Porque Ele é a própria Vida. E a minha vida é um canto de Louvor: Cristo ressuscitou!